
Quando a alma não mais habitar meu corpo, quero doá-lo para uma faculdade de medicina.
Antes de assim decidir, havia pensado em pedir para ser cremada, mas isso demandaria um alto preço. Uma fábula. Não valeria a pena.
Pensei também em pedir para me jogarem ao mar, deixar os peixes, os tubarões, de preferência, pelo seu apetite voraz, darem cabo rapidamente do repasto. Mas tem a parte legal. Não seria certo solicitar isso a alguém. Se é que eu arranjaria um louco o suficiente para tal façanha. Talvez se pagasse... Mas aí volto ao problema do custo.
Idéia descartada.
Tudo isso em razão de não suportar velórios, enterros, missa de corpo presente, de mês, de ano, e sei lá mais o quê. Sempre achei essas cerimônias fúnebres todas sem sentido, dissonantes. O pregador profere uma série de palavras bonitas ( e vazias ) sem saber nem que tipo aquele ser humano foi. A maioria das pessoas ali estão mais por um sentimento de dever que de amizade ou vontade. É muito comum se ouvir dizer: fui porque não tinha outro jeito; há coisa das quais não conseguimos fugir; temos que cumprir com as nossas obrigações ... Fora os que comparecem na intenção de ver quem chorou, quem sofreu, quem sorriu.
O ambiente dessas ocasiões é triste, pesado, melancólico, tétrico. Não é de admirar que as pessoas vão só se não puderem evitar.
Decididamente não quero isso prá mim.
Depois, abomino a idéia de ter meu corpo trancado num caixão,jogado dentro de um buraco, com um monte de terra por cima. Imaginar as minhocas e outros bichos banqueteando-se naquela substância orgânica em decomposição causa-me náusea.
Tem também a parte prática da coisa. Gasta-se uma pequena fortuna para sepultar alguém. Um desperdício de dinheiro que pode ser aplicado em outras coisas mais agradáveis.
Se é pra gastar façam uns comes e bebes. É muito mais interessante. E ninguém precisará comparecer por obrigação.
Com a doação além de evitar esse dispêndio, ainda poderei ser útil aos estudantes,
que têm bastante dificuldade em conseguir esse material de estudo.